Sente-se, locomova-se!
Enquanto nossas preocupações cotidianas resumem-se em não se atrasar para os compromissos, pegar várias conduções ao longo do dia, encarar mais uma rotina de trabalho e, finalmente, poder ir pra casa, muitas pessoas têm de lidar com preocupações ainda maiores – além, é claro, dessas citadas.
Para os cadeirantes, as cidades oferecem grandes obstáculos cotidianos: calçadas esburacadas, muitas escadas, meios de transportes não adaptados. Entretanto, apesar das dificuldades, muitos cadeirantes não se entregam aos obstáculos urbanos e sociais. São pessoas que enxergam através do problema, vão além, buscando seus direitos, entre eles, o de ser feliz.
E foi justamente em um local onde as pessoas vão para se divertir, buscar um pouco de felicidade, que encontrei a jovem cadeirante Angélica Corrêa, se divertindo, no SWU. Todo seu entusiasmo me deixou bastante espantado e, ao mesmo tempo, empolgado, pois apesar do festival disponibilizar uma área especial, ela quis estar no meio da galera, com seus amigos.
Atualmente, ela mora em Bragança Paulista (SP), onde atua como subgerente da recepção de um hotel. Gosta muito de viajar e curtir a noite com os amigos – “me faz realmente relaxar e curtir como qualquer outra pessoa e dificilmente minhas limitações me proíbem de fazer algo.” – explica ela, cadeirante, devido a artrite reumatóide juvenil aos 5 anos.Foi nos tempos de escola/faculdade que boa parte dos obstáculos surgiram, mas para enfrentar as dificuldades, ela contou com a ajuda dos amigos. Hoje, ainda enfrenta dificuldades, como as calçadas esburacadas e/ou estreitas ou acessos muito inclinados, além do desrespeito da população quanto ao uso de vagas especiais.
Angélica ainda exalta as adaptações que os locais onde frequenta realizaram: criação de rampas, vagas especiais, banheiros adaptados, elevadores, corredores mais amplos em bibliotecas.
Se morasse em Esteio (RS), Angélica provavelmente encontraria Rafael Pereira Garcia em sua busca por uma boa leitura. O gaúcho passou a ter os livros como hobby, após tornar-se tetraplégico em um acidente automobilístico, há oito anos. Além da leitura, ele faz pintura em tela, um dom que herdou de sua mãe, Dona Sônia, que como ele mesmo diz, é “uma baita artesã”.
Através da musculação, ele ganha resistência e força para realizar suas atividades diárias, e são poucas as atividades que ele precisa do auxílio de outra pessoa, entretanto, como um cadeirante ativo, ele sente a falta de acessibilidade em sua cidade.
Mudam as cidades, mas os problemas continuam os mesmos. Porém, esse quadro está mudando, e tanto Angélica como Rafael, sentem as mudanças, mesmo que pequenas, já fazem grande diferença em suas vidas.
Rafael ressalta a importância da internet nessas mudanças, principalmente na questão de levar informações para a sociedade. Angélica confirma, relatando que as pessoas estão mais abertas para aceitar as diferenças.
A família e os amigos são fundamentais para todos, em especial para pessoas como Angélica e Rafael que necessitam da acessibilidade para realizar todas as suas atividades com autonomia. Muitas pessoas não possuem o convívio de cadeirantes, sendo difícil assimilar todas as irregularidades urbanas quanto à acessibilidade. A intenção é aguçar essa visão crítica nos leitores e lembrar que essas questões devem ser cobradas de nossos governantes, pois acessibilidade não limita-se apenas aos cadeirantes.
O direito de ir e vir é de todo cidadão, portanto, acessibilidade não é um favor. Pessoas com algum tipo de deficiência não querem ser tratadas como ‘coitados’ ou ‘incapazes’, ficando claro nas palavras dos nossos dois entrevistados: “Minha maior motivação é minha família. Tenho só pessoas do bem ao meu lado, que me apoiam em tudo que faço. Não me tratam como um coitadinho. Sou grato a todos.” – desabafa, Rafael. “Como todos, já passei por situações de preconceito, mas usando a cabeça mostrei que sou muito mais do que esse corpo; que ser cadeirante não te limita, e sim te torna uma pessoa mais sensível, que enxerga a vida com outros olhos. Odeio que sintam pena de mim, pois existem pessoas que não têm os amigos, o trabalho, a família que tenho.” – relata, Angélica.
Um balde de água fria para nós que reclamamos de desviar de um simples buraco na calçada, que nos espantamos ao ver aquelas imensas rampas, que estacionamos um minutinho em uma vaga especial.
Precisamos aprender a respeitar mais a vida, em todas as suas formas: pessoas, animais, florestas, rios. Precisamos aprender que fatalidades acontecem – “Hoje vivo com minhas limitações e com uma vida bem diferente do que eu planejei pra mim” - , mas Rafael não abaixa a cabeça, diz que com força de vontade e determinação, é possível viver bem em uma cadeira de rodas, pois “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.” É preciso ter um objetivo, e “tentar ser feliz todos os dias e aproveitar ao máximo todos os momentos que a vida me proporciona, fazendo da tristeza e das dificuldades uma lição, e tirar o melhor proveito disso” finaliza, Angélica.
É hora de encararmos a acessibilidade de uma nova forma, como uma melhoria para a mobilidade de toda a sociedade. Espero que durante essa semana, nossos posts possam trazer uma nova visão sobre acessibilidade.
Gostaria de deixar meus agradecimentos à Angélica e ao Rafael, que aceitaram participar desse post, contando suas histórias de vida. É fundamental, que a sociedade saiba da necessidade de existir acessibilidade, ainda mais quando a informação é dada através de relatos de pessoas que realmente vivenciam isso no seu dia a dia.
Aproveitando o post, essa semana vi um vídeo/protesto que mostra, de uma forma bem humorada, os problemas enfrentados pelos cadeirantes, comparando a situação com o Le Parkour, onde o praticante deve enfrentar os obstáculos de forma ágil, demonstrando habilidade corporal. Assista o vídeo:


06. dez, 2011 
![SWU2011_MH_FLORAPIMENTEL_153921[1]](http://essetalmeioambiente.com/wp-content/uploads/2011/12/SWU2011_MH_FLORAPIMENTEL_1539211-300x200.jpg)








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