Por uma educação ambiental não sexista

É difícil conseguir um tempo para escrever para o E esse tal Meio Ambiente? e nem todos os assuntos que circulam na pauta da equipe do blog são assuntos sobre os quais eu me autorizo a escrever. Contudo, este em especial, é um assunto diretamente ligado aos meus trabalhos e, portanto, penso que seja interessante compartilhar algumas ideias a respeito dele por aqui. Antes de iniciá-lo, agradeço ao Diêgo Lôbo por sugeri-lo à equipe, bem como à equipe por me incentivar a publicá-lo. Bom, vamos aos trabalhos.

Em setembro de 2010, o site Big Think divulgou os resultados de uma pesquisa desenvolvida por duas pesquisadoras suécas, publicada em 2008 (leia aqui o resumo em inglês do trabalho de Annika Carlsson-Kanyama e Riitta Räty), sobre a produção e uso de energia por homens e mulheres. A divulgação no Big Think serviu como fonte para o blog português LX Sustentável reproduzir a notícia em nossa língua. Se você ler o resumo científico (sugiro a leitura do texto original se queremos discutir sobre o que está sendo dito com seriedade), perceberá que a intenção das autoras é digna e as discussões propostas por elas podem ser consideradas relevantes. Contudo, o que me mobilizou a escrever esta postagem é a forma como ambos os veículos de informação anteriormente citados apresentaram tais trabalhos. Preciso deixar claro que não quero de forma alguma acusar os autores dos textos divulgados no Big Think e no LX Sustentável (leia aqui a postagem do LX Sustentável). Eles são apenas exemplos aplicáveis de como todos nós, inclusive eu, podemos pensar sobre algo e reproduzir esse pensamento atribuindo uma leitura nossa, particular e sem neutralidade, sobre esse algo que contribuirá para o pensamento coletivo.

De acordo com o LX Sustentável, a pesquisa destaca “as diferenças entre sexos na contribuição para o aquecimento global”. O blog também lista os motivos pelos quais homens são considerados os mais poluidores. Veja abaixo:

1. Devido ao gosto que a maioria dos homens têm pelo mundo automóvel, são os que gastam mais horas a conduzir, emitindo grandes níveis de carbono.
2. São também os homens que, no que toca à condução, passam mais tempo a conduzir antes de perguntarem por indicações para chegar ao destino.
3. As mulheres solteiras gastam menos energia do que os homens na mesma situação.
4. Os homens consomem mais energia devido a passarem mais tempo em actividades como jogos e actividades de productividade.
5. No entanto, em contradição, são os homens os que mais se preocupam com questões ambientais em comparação com as mulheres. E são as mulheres que mais energia gastam quando são as responsáveis por tarefas domésticas.

Ora, não tenho a intenção de dizer que o LX Sustentável distorceu o que a pesquisa constata, nem de refutar o que foi dito através da pesquisa. Entretanto, as autoras utilizam, ao longo do trabalho, uma palavrinha mágica não dita pelos seus divulgadores que muda completamente a perspectiva das coisas quando o assunto é a diferença entre homens e mulheres: gênero. Existe uma distância significativa ao se dizer “diferença entre sexos” e “diferença entre gêneros”. A primeira expressão diz respeito ao biológico, ao que está condicionado no corpo de um indivíduo. A segunda expressão reflete as marcas que culturalmente são expressas na camada desse corpo e que, equivocadamente, são pensadas como naturais, como essências de uma natureza feminina/masculina.

Não quero defender os homens por serem apontados como potencialmente os mais poluidores, pois essa diferença pode ser fruto da construção social do gênero masculino, que promove e diariamente realiza manutenção de todas as características que definem um jeito hegemônico de ser homem; e as mulheres não fogem dessa trama. Dependendo de como falamos da pesquisa, podemos promover uma imagem de homem independente e produtivo e caracterizar as mulheres como dependentes, desinteressadas e sem controle ao realizarem tarefas domésticas – tarefas estas consideradas pela sociedade como naturalmente das mulheres. Ou seja, entendo que essa pesquisa não inventou mentiras. São dados e não é a veracidade do que foi dito que está em jogo, mas sim o que esses dados legitimam sobre um determinado gênero. Podemos abranger um pouco mais a discussão e questionar a lógica binária (homem/mulher) que opera nessa discussão; ignoramos a existência de indivíduos que apresentam uma identidade de gênero híbrida e até mesmo nas inúmeras formas diferentes de ser homem e de ser mulher.

Pensando diretamente no trabalho da Educação Ambiental, que é para ser o foco desta postagem, posso dizer que não contribuíremos em nada ao entender equivocadamente essa pesquisa e promover esse entendimento equivocado pela sociedade. Lembremos, enquanto educadores ambientais, que a função de educabilidade precisa ser pensada em condições de igualdade. Portanto, antes de saírmos por aí afirmando que homens são mais poluidores que as mulheres, pensemos em que tipo de homem e em que tipo de mulher estamos falando e também em como isso pode ser entendido pelos nossos interlocutores. Assim, com certeza, estaremos contribuindo por uma educação ambiental menos sexista ou melhor: não sexista.

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  • http://twitter.com/diasbc Bárbara Dias

    Quanto a pesquisa: Ainda dizem que a ciência é neutra…
    Quanto a Educação ambiental sexista? Ta aí um alerta que deve ser propagado, mas eu nem nunca imaginei a possibilidade disso existir, na minha cabeça homens e mulheres podem ser conscientes e atuantes nas causas socioamebientais ou não. Independente do gênero.