Mártires ambientais: acorda Brasil e olha a que ponto chegamos

Foto: Brasil Assassinato de Dorothy Stang - por Jailson

Alguns deputados disseram nunca terem visto na história deste país um envolvimento tão grande e uma plenária tão abarrotada como foi durante a discussão sobre o Novo Código Florestal. Aí eu penso: será que essa discussão e participação acalorada de nossos excelentíssimos representantes tem a ver com a preocupação com o povo brasileiro? Tem a ver com a proteção de nossos recursos naturais? Ou será, uma vez mais, uma manobra política para beneficiar uma pequena parcela de pessoas?

 

O discurso é bonito: regularizar o pequeno produtor, aumentar a produção de alimento, proteger o meio ambiente. Mas devemos sempre lembrar o seguinte: essa discussão ultrapassou a esfera dos estudos e ideias – que é onde elas deveriam concentrar seus esforços e permanecer – e se contaminaram com interesses e acordos partidários, ofensas pessoais e mentiras escabrosas.

Você acredita em coincidências? Uma ou outra, talvez. Mas, e quando essas “coincidências” aparentemente não cessam e continuam acontecendo? É evidente que, mesmo não tendo ligação direta, a discussão sobre o código florestal e os assassinatos ocorridos no Pará estão conectados. Enquanto escrevia meu artigo “Novo Código Florestal: o que eu possa falar?”, onde repudiei o assassinato do casal extrativista Zé da Castanha e Maria do Espírito do Santo, que tiveram as orelhas cortadas como “prova” de que o serviço fora feito, tive um sobressalto ao ouvir a notícia de que o líder do Movimento Camponês Corumbiara, Adelino Ramos, fora assassinado com seis tiros quando ia com a família comercializar seus produtos numa feira.

José Cláudio Ribeiro da Silva e sua esposa Maria do Espírito Santo da Silva

No dia seguinte, mais um tapa na minha cara: o agricultor Erenilton Pereira dos Santos, de 25 anos, foi encontrado morto. Ele seria a principal testemunha no caso do assassinato do casal morto no dia 24.

E você acha que acabou, certo? E se eu lhe disser que, no dia 1º de junho, o trabalhador rural Marcos Gomes da Silva, 33 anos, foi morto a tiros numa emboscada em Eldorado do Carajás, localizada na mesma região onde o casal foi assassinado? Ele chegou a receber socorro, mas homens armados abordaram o veículo que o levava ao hospital. Ali, Marcos teve a orelha arrancada e foi degolado. Fazendo as contas, foram cinco assassinatos em menos de duas semanas. Lí num folheto, ao acaso, uma frase que me fez refletir sobre os acontecimentos. “A Paz é fruto da Justiça”. Se isto é verdade, e pensando friamente acredito que realmente seja, então quais são as reais esperanças?

A justiça é cega, mas o intuito dessa simbologia é a imparcialidade, exprimindo o desprezo pelo mundo exterior face à “luz interior”, não sendo influenciada por interesses externos, dando o veredicto que compõe, única e exclusivamente, a verdade. São Tomás de Aquino disse certa vez que “se a Lei não é justa, não deve ser obedecida como tal”.

A coordenadora da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Isolete Wichinieski, afirmou numa recente entrevista que a impunidade é a principal razão para a violência no campo. Apenas 21 mandantes de assassinatos teriam sido identificados, sendo que somente um, o assassino de irmã Dorothy, estaria preso.  A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, deu uma declaração honesta ao dizer que “o governo não tem condições de garantir a segurança de todos”. Em decorrência da barbárie testemunhada, uma PL foi colocada em votação para tipificar o crime de “extermínio”. Acorda Brasil e olha a que ponto chegamos.

Veja abaixo a palestra do José Cláudio na TEDx Amazônia, em 2010. E veja que tipo de canalha tem coragem de tirar a vida de um cidadão como este.

 

 

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  • http://www.facebook.com/diegolobog Diêgo Lôbo

    Eu tinha de ser o primeiro a comentar, João. Não só porque sou fã de teus textos, mas por ter presenciado seu processo de escrevê-lo. Você me disse que foi um dos textos mais difíceis que já escreveu, e eu estava bastante curioso para lê-lo.
    Eu fico bastante triste e as vezes desmotivado com o Brasil e essa justiça cega que temos. A impunidade me incomoda e mexe comigo ao extremo.
    Adoro esse vídeo do José Cláudio porque com a simplicidade dele, com as palavras erradas e tudo mais, podemos ver que são essas pessoas que estão em contato constante com o meio ambiente as que mais têm embasamento para falar, e principalmente, mais coragem de enfrentar aqueles que a destroem. Ele fala da preservação, da conservação dos recursos naturais às próximas gerações, a uma mudança de comportamento, de padrões de consumo e alimentação… isso é meio ambiente, isso é o que mais me chama atenção.

    Parabéns pelo texto, e adorei o incentivo “acorda brasil”.

  • http://www.colunazero.com.br/ Bruno Rezende

    Excelente argumentação.

    Infelizmente a impunidade neste país é descarada, principalmente no campo. Nenhum fato ocorrido (decisões políticas e assassinatos) durante o mesmo período de aprovação do novo Código Florestal pode ser tratado como mera coincidência.

    Tenho pra mim que os pecuaristas estão desafiando a sociedade. Quiseram provar para o país inteiro que são “politicamente” capazes de decidir leis a favor de seus interesses. Eles queriam mostrar quem manda. Mostrar – através de assassinatos – que eles podem fazer o que quiserem, pois o coronelismo ainda existe.

    A impunidade e a ganância imperam, fazendo com que a verdadeira discussão ambiental vire utopia.

    Abraço.

  • http://essetalmeioambiente.com/bolsa-verde-vale-a-pena-colocar-sua-vida-em-risco-por-r-300/ Bolsa Verde: vale a pena colocar sua vida em risco por R$ 300? | E esse tal Meio Ambiente?

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