E a chuva promete não deixar vestígio
Foto: ANP
Não é de hoje que o Brasil, na estação do verão, sofre com as chuvas torrenciais que costumam desabar sobre ruas e tetos. Aliás, todo ano é sempre a mesma história. Em São Paulo, casas desabam e pessoas perdem imóveis e vidas. Kassab diz que esse ano choveu mais que o passado. Embora seja um erro inadmissível culpar São Pedro pelas tragédias, ele não deixa de ter razão. O volume de chuvas tem aumentado gradativamente ano a ano. Milhões em obras são gastos para tentar conter a fúria das águas. Obras significam, literalmente, brita e cimento. E este é o grande problema. As águas não tem pra onde escoar. Há os bueiros que não dão conta e os pífios existentes, entupidos pelos porcalhões que jogam lixo nas ruas. Sim, eles ainda estão entre nós e não são poucos. E não adianta criar mais, as redes de esgoto não suportam o volume, e as águas vão para rios e córregos, que transbordam causando prejuízos, tragédias e aumentando ibopes. Casas desmoronam e matam em encostas, pessoas continuam em suas casas condenadas. Não têm pra onde ir, justificam. Com razão.
“A emenda é pior que o soneto”, já disse certa vez o poeta português Bocage, eternizando a expressão. A cidade de Atibaia está em estado de alerta; até agora morreram treze na capital paulista e crateras dilaceram ruas; prédios desabam no Rio de Janeiro e os mortos já chegam a quase 800 (até a finalização deste artigo); 65 cidades decretam estado de calamidade em Minas Gerais; árvores saem voando em Mairinque; córrego transborda e inunda casas em Votorantim; levantamento de chão na marginal Dom Aguirre em Sorocaba não surte efeito; e sei que cada um dos leitores deste artigo têm uma história relativa pra contar.
Em aspectos econômicos, os prejuízos são incontáveis. Nossos bolsos sofrem: a chuva destrói plantações e apodrece estoques. Vá ao sacolão e compre um quilo de tomate, uma alface e duas cenouras, só não esqueça de levar um a mais para não voltar com apenas um pepino, e não é do japonês. É, agora sobra pra todo mundo descascar o abacaxi e chupar essa manga.
Estamos comprando uma briga desleal com a mãe natureza. Tudo o que ela quer é, simplesmente, seguir o seu curso. E não importa o que esteja pelo caminho. O homem não toma conhecimento de suas necessidades e constrói, cimenta, emporcalha, destrói, faz filho e não perde um dia de Big Bróder. Custa deixar um metro de diâmetro ao redor de árvores no meio urbano? Custa jogar o papel no lixo? Custa o poder público se preocupar com quem mais precisa e fazer as mudanças prometidas e não cumpridas? Verba pra isso é recebida. Mas infelizmente acabam tendo outro destino, leia-se Rede Globo. É dever do Estado fazer com que centenas de pessoas não percam a vida todo ano. Custa fazer o mínimo minha gente? Custa sim e não é barato.
Mas tá tudo bem. Já tem gente combinando o carnaval, vai começar o futebol e o coringão entra em campo, agora o Ronaldinho Gaúcho tá no Flamengo, o Totó ressuscitou e o Tiririca é o representante do povo na Câmara. Áh, adoro me embriagar de vinho saboreando pão. Assim que o Sol der as caras e a chuva, trégua, tudo volta ao normal e seremos felizes para sempre. Ou pelo menos até o próximo verão…


22. jan, 2011 







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